A expectativa de vida do brasileiro está no maior patamar histórico. Esse dado, celebrado pela medicina, carrega uma consequência financeira que ainda é pouco discutida.
O cenário demográfico
Em 2024, o IBGE registrou a maior expectativa de vida já medida no Brasil: 76,6 anos. Quem chega aos 60 anos tem, em média, mais 22,6 anos pela frente. As projeções para 2070 apontam 83,9 anos.
Em paralelo, a população envelhece rapidamente. Em 2000, 8,7% dos brasileiros tinham 60 anos ou mais. Em 2023, esse percentual chegou a 15,6% e a estimativa para 2070 é de 37,8%.
Viver mais é, sob qualquer ângulo, uma conquista. Mas ela vem acompanhada de uma pergunta que o sistema previdenciário tradicional não responde sozinho: de onde vem a renda para sustentar esse tempo adicional de vida?
O que os dados globais mostram
O Julius Baer Global Wealth and Lifestyle Report 2025, que acompanha o comportamento financeiro de indivíduos de alto patrimônio em 25 países, identificou uma mudança relevante: pela primeira vez, a preservação de patrimônio ganhou mais peso do que o crescimento de ativos nas prioridades dos entrevistados, especialmente na Europa e América do Norte.
Entre 87% e 100% dos participantes da pesquisa afirmaram tomar medidas ativas para ampliar sua longevidade. A maioria disse que revisaria sua estratégia financeira se soubesse que viveria dez anos a mais do que o previsto.
“Viver mais com bem-estar, sem estrutura financeira de longo prazo, se torna insustentável rapidamente.”
Julius Baer, Global Wealth and Lifestyle Report 2025
Um custo que cresce fora do radar
Um fator que tende a distorcer qualquer projeção financeira pessoal é o custo da saúde. Segundo o índice VCMH do IESS, os gastos médico-hospitalares subiram mais de 15% em um único ano, enquanto o IPCA ficou em pouco mais de 3% no mesmo período.
A longevidade, na prática, se divide em duas fases com perfis de custo muito diferentes. Os primeiros anos de aposentadoria tendem a ser ativos e relativamente baratos. Com o avanço da idade, os custos com saúde, cuidados contínuos e eventual assistência especializada crescem de forma acentuada. Qualquer modelo de planejamento que ignore essa curva parte de premissas incompletas.
O que o debate atual aponta
Pesquisadores, gestoras e entidades previdenciárias convergem em um ponto: o modelo de “acumular e gastar” não é suficiente para ciclos de vida cada vez mais longos. A discussão técnica hoje gira em torno de como converter patrimônio acumulado em renda vitalícia sustentável, que resista a décadas de inflação, variações de mercado e custos crescentes com saúde.
Para profissionais com carreiras de alta renda e founders que constroem patrimônio fora da estrutura CLT, o desafio é ainda mais específico: sem contribuição previdenciária consistente ao longo dos anos produtivos, a dependência de estratégias complementares de acumulação e proteção aumenta significativamente.
O Senado Federal e entidades como o Instituto de Longevidade MAG têm discutido esse reposicionamento: antes de pensar em sucessão patrimonial, é preciso garantir que os recursos sustentem o próprio envelhecimento com qualidade e autonomia.
O que fica dessa leitura
Longevidade financeira não é um produto financeiro. É um conceito que descreve a capacidade de um patrimônio durar tanto quanto a vida de quem o construiu.
Os dados demográficos e os relatórios de mercado apontam na mesma direção: a geração que hoje está nos seus 30, 40 e início dos 50 anos vai, estatisticamente, viver mais do que qualquer geração anterior. A pergunta que cada um responde individualmente é se o planejamento financeiro atual foi desenhado para essa realidade?
Fontes:
IBGE – Tábuas de Mortalidade 2024 | Julius Baer Report 2025 | IESS – VCMH | Senado Federal | Instituto de Longevidade MAG | InfoMoney
