Durante quase vinte anos, escolher o regime tributário do ano seguinte foi assunto de janeiro. Virava o ano, você sentava com o contador, resolvia.
Esse calendário mudou na terça. A janela agora é setembro e fecha no dia 30. Vale para quem pretende entrar no Simples Nacional em 2027 e, principalmente, para quem já está dentro e tem pela frente uma decisão que não existia até agora.
São trinta dias para responder uma pergunta que não é sobre imposto. Volto nela mais abaixo.
=> Economia
O PIB do segundo trimestre veio a 0,5%, contra 1,1% do primeiro. Quem puxou foi a agropecuária, com 2,8%. A indústria ficou em 0,1%, praticamente parada. Os números completos estão na divulgação do IBGE.
O dado que realmente interessa é outro. O consumo das famílias caiu 0,4% e foi o único componente do PIB a recuar. Com Selic em 14% e crédito caro, as pessoas seguraram a mão. Quem vende serviço para pessoa física provavelmente sentiu isso antes de o IBGE publicar.
No Focus de segunda, o mercado cortou o IPCA de 2026 para 5,01% e o PIB para 1,92%. Selic segue projetada em 13,75% no fim do ano e dólar em R$ 5,20. Na sexta a bolsa fechou a segunda melhor semana do ano, alta acumulada de 5,40%, e o dólar terminou a R$ 5,13, com queda de 1,3% na semana e 6,5% no ano. O próximo Copom é dia 15 e 16.
=> Investimentos
Com o dólar 6,5% mais barato no ano e a renda fixa brasileira pagando 14%, comprar dólar parece a decisão mais sem sentido possível. É justamente por isso que a conversa fica interessante.
O Seu Dinheiro publicou na terça uma matéria com um estudo da XP mostrando que o retorno de uma posição em dólar teve correlação praticamente nula com o CDI entre 2016 e 2026. O objetivo nunca foi ganhar mais. É fazer com que a carteira pare de depender de um único cenário dar certo. Os Treasurys de dez anos estão em 4,65% ao ano, os de trinta em 5,25%.
A conta prática desta semana é simples de fazer e quase ninguém faz. Se sua renda é em real, seu faturamento PJ é em real e seus investimentos são em real, você tem três apostas idênticas empilhadas. Abra a carteira e veja qual percentual do seu patrimônio depende do Brasil funcionar bem. Fundos internacionais de renda fixa e ETFs são as portas de entrada mais simples, e a hora de olhar para isso é quando a moeda está barata, não quando ela já disparou.
=> Liderança
Voltando ao prazo que abriu na terça.
Empresas do Simples Nacional têm até o dia 30 para decidir se, a partir de 2027, vão recolher IBS e CBS dentro da guia única ou separadamente, pelo regime regular
A Receita abriu o serviço no portal e o mercado já apelidou a segunda opção de Simples híbrido.
Quem não fizer nada continua no modelo padrão. Para quem vende direto ao consumidor final, isso costuma ser o melhor caminho mesmo. Mas quem fatura para outras empresas precisa olhar com atenção, porque no regime regular o cliente aproveita crédito integral dos dois tributos. Prestador de serviço de TI que atende empresa média ou grande pode ficar mais caro que o concorrente na conta final do cliente sem nunca ter mexido no próprio preço.
A escolha não é sobre alíquota. É sobre para quem você vende. Dá para cancelar até 30 de novembro, o que reduz o peso da decisão, mas não elimina a necessidade de sentar com o contador antes do fim do mês.
=> IA & Produtividade
Metade das empresas brasileiras já usa IA de alguma forma, contra 40% no ano passado. O dado é do estudo da Strand Partners para a AWS, divulgado na quinta, com mil líderes empresariais ouvidos. Sozinho, o número não diz grande coisa.
O resto diz. Das que adotaram, 58% estão no uso básico, chatbot público e ferramenta pronta para tarefa de rotina. Só 15% chegaram ao estágio avançado. E aqui está o achado que interessa: 47% não confiam na própria capacidade de medir o retorno dos projetos de IA, e apenas 28% têm um método formal para avaliar se aquilo está funcionando.
Em 20% das empresas as métricas de IA são acompanhadas e quase nunca influenciam decisão nenhuma. É instalar o painel e nunca olhar para ele. As startups aparecem bem melhor, 68% de adoção e 26% em estágio avançado, o que faz sentido porque muitas nasceram dentro deste ciclo. O contraste sugere que o gargalo não é ferramenta nem orçamento, é método.
=> Saúde & Longevidade
Desde maio deste ano a NR-1 passou a exigir que empresas tratem riscos psicossociais dentro do programa de gerenciamento de riscos ocupacionais. Sobrecarga, metas incompatíveis com a equipe, jornada sem pausa, ausência de autonomia. O foco não é diagnosticar ninguém, é olhar para as condições em que o trabalho acontece.
O que me chama atenção nessa mudança é a inversão que ela representa. Por décadas a saúde ocupacional olhou para o corpo, com EPI, ruído, ergonomia, esforço repetitivo. Agora olha para o desenho do trabalho. Para quem toca empresa de tecnologia, onde o risco físico é quase zero e o desgaste mental é rotina, essa virada chegou com bastante atraso.
E vale para o dono, não só para a equipe. A pessoa que responde mensagem às onze da noite raramente se enxerga dentro do próprio inventário de riscos.
Grande abraço,
Boa semana pra você e pra família!
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