Nove pregões seguidos de queda. A maior sequência desde 2023.

O estranho é que a semana não trouxe nenhuma notícia econômica ruim de verdade. A inflação veio comportada, o Copom tinha acabado de cortar juros, o Focus mexeu nos números na casa do centésimo. E a bolsa caiu todo santo dia mesmo assim. Quando o dado não explica o movimento, normalmente é porque o mercado está precificando outra coisa. Este ano essa outra coisa tem nome, e ela acontece em outubro.

Segue o que separei da semana.


=> Economia

O Ibovespa fechou sexta em 166.934 pontos, com queda de pouco mais de 3% na semana, e o dólar foi a R$ 5,22, o nível mais alto desde o fim de março. O que puxou isso foi dinheiro indo embora: saíram R$ 13,56 bilhões de estrangeiros da bolsa brasileira só até o dia 12, numa combinação de risco fiscal com incerteza eleitoral que já virou o assunto padrão das mesas de operação.

Enquanto isso, do lado dos preços, a vida seguiu razoavelmente calma. O IPCA de julho subiu 0,07% e fechou 12 meses em 4,44%, com energia elétrica residencial (mais 3,09%) segurando o índice para cima e alimentos caindo 0,67%, puxados por um tomate que despencou 29% no mês. Se você achou a conta de luz mais salgada em julho e o mercado mais barato, não foi impressão.

Na terça saiu a ata do Copom, referente ao corte que levou a Selic a 14%. O tom foi de quem cortou mas não quer se comprometer com nada, e o mercado saiu de lá dividido entre quem acha que para por aqui e quem projeta 13,25% a 13,75% até dezembro. O Focus de segunda trabalha com Selic a 13,75% no fim do ano, IPCA em 5,02% e PIB de 1,98%. Uma economia andando devagar com juro alto, que é mais ou menos o retrato do que a gente vem vivendo.

=> Investimentos

O Tesouro IPCA+ 2026 venceu no sábado. Nesta segunda, R$ 12,88 bilhões caem na conta de investidores pessoa física, e somando fundos o número passa de R$ 258 bilhões. Quem colocou R$ 1.000 nesse papel dez anos atrás está recebendo por volta de R$ 3.175 líquidos de imposto. Não é milagre, é juro composto e paciência.

O ponto interessante é o timing. Esse dinheiro está caindo justamente na semana em que a fuga de estrangeiros empurrou as taxas dos títulos públicos para cima de novo. Prefixado rondando 14% ao ano e IPCA+ perto de 7,80% de juro real são taxas que não existiam com essa naturalidade dez anos atrás.

A dica prática aqui é chata mas funciona: antes de escolher o título, escolha a data. Dinheiro que você pode precisar em 12 meses vai para Tesouro Selic e ponto final. Dinheiro com destino definido para daqui a cinco, dez, quinze anos é o que justifica travar juro real alto agora. E se você é PJ e recebeu esse resgate, resista à tentação de deixar parado na conta da empresa esperando “decidir depois”. Duas semanas de indecisão custam mais do que parece com juro nesse patamar.

=> Liderança

Uma pauta que quase ficou de fora e acho que merecia: as empresas voltaram a namorar profissionais mais velhos. O InfoMoney trouxe na quarta um levantamento mostrando que o pico salarial acontece entre 46 e 55 anos, e que 65% dos novos diretores financeiros contratados no Brasil já tinham ocupado a mesma cadeira antes. Do lado americano, cerca de 40% dos CEOs que voltam da aposentadoria repetem ou superam o desempenho do primeiro mandato.

A leitura óbvia seria “experiência valorizada de novo”. Acho que é outra coisa. 

Quanto mais rápido a tecnologia muda, mais caro fica o erro de quem nunca viu um ciclo inteiro acontecer. Um dos executivos entrevistados disse que gasta 60% do tempo com cultura, liderança e seleção de pessoas. Sessenta por cento. Isso não é o que a maioria dos fundadores de tecnologia que conheço faz, e talvez devesse ser.

Na mesma linha, saiu uma reportagem boa sobre o que virou o benefício mais disputado por executivos, que não é home office, é autonomia de horário. Um dado da Gartner citado ali: tempo protegido para trabalho individual pode elevar o desempenho em 26%. E uma pesquisa de Oxford mostrando que 86% das pessoas dizem que as reuniões servem para executar tarefas, contra 37% que dizem que servem para conversas criativas. Se a sua agenda parece com isso, o problema não é a equipe.

=> IA & Produtividade

O dado da semana veio da CNN na sexta: um estudo do McKinsey Global Institute calcula que 56% das horas trabalhadas no Brasil poderiam ser automatizadas com a tecnologia que já existe hoje, com potencial de US$ 135 bilhões até 2030. O mesmo estudo diz que 78% das habilidades demandadas seguem dependendo de trabalho humano. Os dois números convivem sem se contradizer, e é aí que mora a decisão prática: não é sobre substituir gente, é sobre quais horas da sua semana são repetitivas o suficiente para não valerem mais o seu tempo.

Agora o contraponto, que achei mais útil ainda. Pesquisadores do Instituto de Computação da Unicamp testaram 21 sistemas de IA e analisaram mais de 47 mil respostas sobre temas sensíveis brasileiros. Todos eles se adaptaram ao viés de quem estava perguntando. Os autores chamaram de camaleão ideológico. Economia e segurança pública foram os assuntos onde a concordância automática apareceu mais.

Traduzindo para o seu dia a dia: se você usa IA para validar uma decisão de negócio, ela provavelmente vai concordar com você. Vale mudar a pergunta. Em vez de “essa estratégia faz sentido?”, pergunte “quais são os três motivos pelos quais isso daria errado?”. A resposta muda completamente, e é a segunda que serve para alguma coisa.

=> Saúde & Longevidade

Se você passa o dia sentado escrevendo código ou em call, esse aqui é seu. Um estudo publicado na quinta na Cell Reports acompanhou o que acontece no corpo depois de seis tiros de 30 segundos na esteira, três minutos de esforço no total. Quase um quarto das proteínas medidas mudou, e mais de 200 metabólitos foram alterados. Efeito maior do que 90 minutos de pedalada moderada.

Na mesma reportagem, uma revisão publicada no American Journal of Cardiovascular Drugs juntou 1.900 estudos com dados de 480 mil pessoas acompanhadas por cerca de 14 anos. Quem sobe escada regularmente teve 60% menos mortalidade por todas as causas e 39% menos por doença cardiovascular. 

Escada. Aquilo que fica do lado do elevador.

Eu sei que soa bom demais, e nenhum estudo isolado resolve a questão. Mas o recado das duas pesquisas juntas é razoavelmente consistente: intensidade curta parece contar mais do que a gente imaginava, e a barreira de entrada é bem menor do que “arrumar uma hora por dia para academia”. Três minutos existem na sua agenda. O elevador do prédio também tem escada ao lado.

Grande abraço,

Boa semana pra você e pra família!

Max Carneiro | Seu parceiro de planejamento financeiro e proteção familiar

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