Junho começou quebrando um recorde que ninguém queria quebrar. O Ibovespa completou oito semanas consecutivas de queda, a maior sequência negativa desde que a série histórica começou a ser registrada, em 1982. O gatilho dessa semana veio de fora, de um relatório de emprego americano que veio forte demais e fez o mercado repensar tudo sobre os juros nos EUA. O dólar voltou para o maior nível desde o início da guerra no Oriente Médio. E a inflação projetada para 2026 chegou a 5,11%, subindo pela décima terceira semana seguida. É muita coisa acumulada num período curto.

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Na sexta-feira, dia 5, o Ibovespa fechou abaixo dos 170 mil pontos pela primeira vez desde janeiro, aos 169.019 pontos, com queda de 0,77% no dia e 2,74% na semana. Oito semanas seguidas de perda. A série histórica da B3 vai até 1982 e não tem registro de sequência maior do que essa.

O gatilho foi o payroll americano. O Departamento do Trabalho dos EUA informou que foram gerados 172 mil postos de trabalho em maio, bem acima dos 85 mil esperados pelos analistas. Um mercado de trabalho americano desse tamanho significa que o Fed não vai cortar juros cedo. Juros altos nos EUA por mais tempo drenam capital dos emergentes. E o Brasil sentiu isso direto. O dólar fechou a R$ 5,1555, maior cotação desde 2 de abril, com alta de 2,18% na semana e queda acumulada de apenas 6,08% no ano.

Teve mais uma notícia que passou menos despercebida. Os Estados Unidos classificaram o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras. A decisão tem efeito prático sobre bancos e fintechs brasileiras, que passam a ter obrigação de reforçar sistemas de monitoramento de compliance e prevenção à lavagem de dinheiro, para evitar exposição indireta a operações suspeitas. Isso tem custo operacional real. E ajuda a explicar parte da cautela com ações do setor financeiro nessa semana.

O Boletim Focus desta segunda-feira mostrou o IPCA projetado para 2026 subindo para 5,11%, décima terceira alta consecutiva, agora bem acima do teto da meta de 4,5%. A Selic esperada para o fim do ano subiu para 13,5%. O Copom se reúne nos dias 16 e 17 de junho. O mercado já está debatendo se o BC vai pausar o ciclo de cortes ou continuar com cautela redobrada.

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Os juros futuros fecharam nas máximas do ano nessa semana. Esse detalhe passou despercebido em boa parte da cobertura do noticiário, mas é o que muda a leitura do fechamento. Não foi só a bolsa que cedeu. O mercado de juros sinalizou algo mais difícil de reverter num único pregão, com DIs estressando toda a curva.

Isso significa que quem está posicionado em renda fixa de qualidade está vendo as taxas subirem, o que na prática aumenta o valor de mercado dos títulos prefixados e IPCA+ que ainda não venceram. É o efeito oposto ao que acontece quando os juros caem. Para quem comprou com prazo longo, a rentabilidade real travada continua sendo um dos melhores pontos de entrada da última década.

A bolsa está em 169 mil pontos depois de ter chegado perto dos 199 mil em abril. Uma correção de quase 15% em menos de dois meses. Quem olha isso como catástrofe e quem olha como oportunidade dependem do horizonte de tempo que cada um tem. E da liquidez disponível pra agir sem pressa. Sem as duas coisas juntas, qualquer decisão tomada agora vai parecer precipitada daqui a seis meses.

=> Liderança

Um artigo publicado recentemente no Agita Brasil colocou em palavras algo que eu vejo com frequência no campo do empreendedorismo: as decisões dos empresários brasileiros estão sendo atravessadas cada vez mais por narrativa e menos por fundamento. A ascensão do empreendedorismo como fenômeno cultural criou uma pressão simbólica nova. Empreender virou identidade. E identidade às vezes faz a pessoa tomar decisão que não faria se estivesse olhando só para os números.

O dado que o artigo traz é duro: segundo o GEM 2024, cerca de 47 milhões de brasileiros estão envolvidos em alguma atividade empreendedora. E dados do IBGE indicam que aproximadamente 60% das empresas encerram as operações antes de completar cinco anos.

Escala enorme de entrada, taxa alta de saída.

O que conecta esses dois números é o que a CEO Tatyane Luncah descreveu com clareza num artigo do Jornal do Brás: o maior desafio não está no talento ou na vontade de fazer acontecer, mas em tomar decisões sem método. Carregar a empresa sozinha. Confundir esforço com clareza. Isso não é fraqueza. É o padrão mais comum. E é o que separa quem passa dos cinco anos de quem não passa.

=> IA & Produtividade

A notícia mais importante da semana no campo de IA não foi sobre tecnologia. Foi sobre política. O presidente da Câmara, Hugo Motta, anunciou que a comissão especial responsável pelo Marco Regulatório da IA deve votar o texto até o dia 9 de junho, com o plenário da Câmara deliberando antes do fim do mês. A declaração foi feita no Brasília Tech Summit, evento sobre economia digital realizado em Brasília.

Isso é concreto. Depois de anos de tramitação, o PL 2338/2023 está com data. O relator Aguinaldo Ribeiro confirmou que apresentará o parecer dentro do prazo. A urgência já foi aprovada pelos deputados, o que acelera a análise em plenário.

O que está em jogo é o equilíbrio entre proteção e inovação. O Startupi publicou uma análise detalhada dos impactos que resume bem a tensão central: a regulação precisa ser rigorosa o suficiente para criar segurança jurídica e proteger direitos, mas flexível o suficiente para não inviabilizar o ecossistema de inovação brasileiro, especialmente startups e pequenas empresas que não têm estrutura para absorver obrigações pesadas de compliance. Junho vai ser decisivo. Qualquer empresa que usa ou planeja usar IA nos processos precisa acompanhar o que vai sair dessa votação.

=> Saúde & Longevidade

Uma pesquisa da Unicamp publicada esse ano traz um dado que eu não consegui parar de pensar depois de ler. O estudo acompanhou 1.311 idosos por mais de dez anos e mostrou que aqueles com pior capacidade física tinham o dobro do risco de morte em comparação com os de melhor mobilidade. Não foi dieta, não foi genética, não foi renda. Foi mobilidade. A capacidade de se mover.

O segundo dado da mesma pesquisa é ainda mais interessante: a percepção subjetiva de felicidade e a autoavaliação da saúde foram preditores independentes de mortalidade. Ou seja, o idoso que se percebia feliz e saudável vivia mais, independente dos exames laboratoriais. O quanto você acredita que está bem influencia o quanto você vai ficar bem. Isso não é esoterismo. É dado de coorte com significância estatística.

O demógrafo Rômulo Paes, num texto recente do CEE Fiocruz, colocou o problema brasileiro com precisão: o país perdeu o primeiro bônus demográfico, que era ter uma população jovem e produtiva.

Agora o desafio é o segundo bônus, que é transformar longevidade em qualidade de vida real, e não em velhice que sobrecarrega as políticas sociais. A Fiocruz realiza em junho um seminário sobre perspectivas da saúde no Brasil justamente em torno desse tema.

A pergunta que fica não tem resposta fácil. O Brasil está envelhecendo rápido. O sistema de saúde está sob pressão crescente. E a prevenção, que é a resposta mais inteligente, ainda é tratada como gasto opcional pela maioria das pessoas até o dia em que deixa de ser opcional.

Oito semanas de queda na bolsa. Dólar no maior nível desde o início da guerra. Inflação projetada acima do teto da meta pela décima terceira semana seguida. E o Marco da IA prestes a ser votado no Congresso. Junho começou pesado e com pauta cheia. O Copom decide na semana que vem. O mercado vai estar muito atento ao que o BC vai sinalizar sobre o que vem depois.

Grande abraço,

Boa semana pra você e pra família!

Max Carneiro | Seu parceiro de planejamento financeiro e proteção familiar

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